Cinema: uma arte de muitas etapas

Cinema: uma arte de muitas etapas

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Com uma carreira de cerca de dez anos como cineasta, o gaúcho Emiliano Cunha, produtor, diretor e roteirista de cinema, construiu sua trajetória em cima de curtas-metragens reconhecidos por personalidades da área. Em agosto de 2019 estreou o seu longa Raia 4, já premiado no Festival de Cinema de Gramado de 2019. Seu lançamento nas salas de projeções está previsto para o primeiro trimestre de 2020. Graduado em cinema pela PUCRS, Emiliano, 37 anos, conversou com a revista Fortus News contando um pouco sobre este mundo que envolve as produções para a telona.

Foto: Tuane Eggers Ausgang

Etapas – Baseado em sua recente produção, o Raia 4, Emiliano contou que desde sua primeira ideia para o filme, em 2013, até sua estreia, em 2019, foram seis anos. Sua carreira foi traçada através de curtas-metragens, sendo a maioria feito praticamente sem investimento nenhum. Ganhou o primeiro edital de curtas em 2014, no Funproarte, e outro, em 2017, via Ministério da Cultura. Ambos foram prêmios de produção, o que foi conferindo ao profissional visibilidade e condições de aporte para outras produções por meio de edital público.

“Contemplamos o Raia 4 em 2016, e fui produzir em 2018, sendo um longo processo, pois antes mesmo de o filme ser produzido, é necessário que o mercado de distribuição compre a ideia.” O cineasta comentou que todas essas amarras comerciais têm de ser realizadas antes para garantir que a produção terá financiamento e alguma segurança de retorno. Essa garantia no cinema pode vir de várias formas, disse ele. Retorno de bilheteria ou retornos mais simbólicos e artísticos, como a participação em festivais, do quanto a produção rodou pelo mundo, além da quantidade de licenciamentos em plataformas alternativas.

Orçamento – Para a produção de um longa é muita gente envolvida, durante muito tempo, envolvendo muito dinheiro e muito trabalho. “Tudo é gigantesco. Em termos de valores no Brasil, o baixo orçamento gira em torno de 1,2 milhão de reais, o que não paga nem um plano de 5 segundos numa grande produção holywoodiana, que gira numa faixa que vai de 50 a 400 milhões de dólares.”

O Raia 4, de acordo com Emiliano, teve um orçamento em torno de 1,5 milhão de reais, ficando numa faixa de baixa estimativa. “No Brasil, uma faixa de orçamento considerada não baixa, gira em torno de 5 a 6 milhões de reais.”

Disciplina – Cada cronograma de trabalho é conforme o roteiro, ressaltou ele. “Se o filme se passar à noite, por exemplo, se faz madrugadões. Nestes casos, se entra no set de filmagem em torno de 18h e só se sai mais ou menos às 7h da manhã. E quando é assim segue-se nesse ritmo quatro, cinco, seis semanas…”

“Para a produção de um longa é muita gente envolvida, durante muito tempo, envolvendo muito dinheiro e muito trabalho. Em termos de valores no Brasil, o baixo orçamento gira em torno de 1,2 milhão de reais, o que não paga nem um plano de 5 segundos numa grande produção holywoodiana, que gira numa faixa que vai de 50 a 400 milhões de dólares.”

E, conforme explicou Emiliano, para que tudo isso funcione, num set de filmagem disciplina e agilidade são fundamentais. “Um não pode interferir na função do outro. Por isso, eu cada vez mais entendo a direção de cena como um grande processo de gestão de pessoas, onde é necessário que cada um se sinta valorizado.” 

Geração de empregos – Uma das coisas que a população em geral não sabe, observou Emiliano, é a quantidade de gente que trabalha numa produção cinematográfica. São muitas pessoas envolvidas desde o desenvolvimento; viagem, para vender a ideia do filme; pré-produção, que envolve figurino, arte, linguagem; ensaio com elenco; e a gravação das cenas propriamente ditas. Aí vem a pós-produção, englobando montagem, corte, cor, efeitos especiais, trilha, desenho e som, letreiros, créditos, arte, pôster, entre outras funções. “Então, para se fazer um longa, desde a concepção da ideia até o filme ser assistido na tela dos cinemas, é praticamente um ano de trabalho contínuo entre todas as etapas do filme, com inúmeras pessoas executando cada uma o seu ofício”, afirmou. Segundo Emiliano, no Raia 4, por exemplo, entre empregos diretos e indiretos, foram em torno de 400 postos de trabalho.

Foto: Tuane Eggers Ausgang

Financiamento – Conforme evidenciou o cineasta, a maioria das produções brasileiras se dá através do Fundo Setorial do Audiovisual, que é um fundo pensado para autossustentabilidade. O cineasta explicou que existe a Lei do Audiovisual, que faz com que as teles como Vivo, Claro, Tim, Oi, retenham um percentual por linha de operadora, que hoje está em torno de 4 reais, gerando, desta forma, um fundo. Assim, é um dinheiro que vem da iniciativa privada, aplicado na indústria interna, sendo esta uma das fontes do Fundo Setorial do Audiovisual.

Outra fonte vem das próprias produções, que, de acordo com o profissional, quando são lançadas, na televisão, em salas de cinema ou em outros locais, precisam pagar uma taxa, o Condecine, que vai também para esse mesmo fundo. “Assim, esse fundo gere uma série de políticas públicas, com linhas para produção, para games, para filmes de apelo comercial, de distribuição, e outras. Foi um mecanismo pensado para atacar em todas as frentes do audiovisual, pois antes era tudo focado na produção. Os filmes eram feitos e ficavam na gaveta”, comentou.

“Dá para viver do cinema, mas não é fácil, tem que ser muito estrategista, e não depender somente do Brasil. Ou seja, tentar coproduções de fundos internacionais”, afirmou. O profissional ressaltou ainda a importância de preservar a indústria criativa nacional, bem como de ver um produtor cultural da área como um trabalhador.

 

 

 

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